Imagem da estação Vila Olímpia
O trem que vai de Osasco ao Grajaú mostra uma cidade bem diferente daquela que se vê no percurso entre a estação Júlio Prestes e Itapevi.
A primeira linha contorna a marginal do rio Pinheiros e vai apresentando os resultados do trabalho do Projeto Pomar nas margens do rio; as usinas elevatórias de Pedreira e Traição, que foram construídas com o objetivo de reverter o fluxo natural do rio para gerar energia na usina Henry Borden, em Cubatão; além do autódromo de Interlagos. Mas, se tem uma coisa que esse trem não mostra é a imensidão perdida da zona sul, que apenas começa na estação Grajaú.
Já para quem sai do Grajaú, o trem é uma das melhores possibilidades de atingir o resto da cidade.
(Maria Chaves sai da rua Santo Antônio, no Jardim Gaivotas, às 6h30 para pegar a lotação que a deixa na estação Grajaú. Às 9h ela deve estar na rua Tavares Bastos, no bairro da Pompeia.)
A música clássica que acompanha os passageiros pára quando o trem chega a cada uma das estações, a cada um dos bairros que completa o mosaico de contradições e desigualdades da cidade: Jaguaré, Pinheiros, Morumbi, Interlagos, Grajaú.
(Estação Morumbi, 10h: aqui descem pessoas que trabalham no Market Place, no Shopping Morumbi, nas grandes empresas da região, além dos candidatos que estão fazendo entrevista de emprego para ocupar as últimas vagas de vendedor da futura loja da Daslu.)
Enquanto isso, a outra linha passeia pela zona oeste e mostra uma paisagem predominantemente cinza, de galpões e lugares abandonados: uma cidade feia, descuidada. A viagem que para alguns pode levar muito tempo, no entanto, não se torna entediante ou desinteressante. Aos poucos as pessoas se revelam: vendedores de doces apresentam uma dinâmica de trabalho de quem tem que ser ágil e criativo para vender suas canetas, mapas, doces ou amendoins.
Vila Leopoldina, Lapa, Barra Funda...
Para quem espera para chegar em casa, cada estação significa que novos produtos serão oferecidos. Para quem vende, cada parada quer dizer que os gestos devem se repetir: guardar os produtos na bolsa, na sacola preta, embaixo da camiseta para não ser pego pela fiscalização.
(Estação Lapa, 8h30: depois de enfrentar o aperto dentro do trem, as pessoas vão ter de atravessar um longo e estreito corredor para conseguir sair da estação. Além da absurda quantidade de pessoas tentando se movimentar, há os vendedores ambulantes que lá se instalam com suas barraquinhas, lanternas coloridas e marmitas montanhosas, diminuindo ainda mais o espaço.)
O momento de descer do trem, seja ele qual for, parece representar um alívio para quem chega ao trabalho, para quem está voltando de uma visita, de um passeio, da escola ou de um encontro romântico... são apenas alguns movimentos cotidianos que se encerram para que outros possam continuar reconstruindo e remodelando a paisagem e o dia a dia conturbado da cidade.