Quinta-feira, Setembro 17, 2009

Personagens da cidade: Dina

O sanduíche de carne-louca do bar da praça Roosevelt, reconhecido pelos clientes assíduos como uma das melhores opções de petisco da cidade, pode demorar mais tempo para chegar às mesas dos fundos. É que todas as vezes que o garçom responsável por esse setor passa por Dina ele faz questão de trocar algumas palavras de afeto com a senhora que em julho completou 67 anos. Para ela, a explicação de tanto carinho está nos astros: "Sou canceriana, né? Todo mundo gosta de mim!".
A mineira, que já trabalhou como babá, doceira, fez limpeza no restaurante Nova Pequim (que na época ficava na rua da Glória) e passou mais de oito anos em uma grande metalúrgica do ABC, guarda seus livros com carinho atrás do balcão do bar. Depois de perder o único filho no fim do ano passado, ela garante que tem apenas duas coisas na vida: o trabalho e seu gatinho Garfield, que recebeu esse nome por ser loirinho igual como o personagem do desenho animado.
Depois de uma desilusão amorosa em Governador Valadares, sua cidade natal, Dina veio pra São Paulo. Seu namorado mais especial foi um uruguaio, grande, de olhos arregalados. No começo teve aquela paixão, mas depois o fogo foi baixando e eles se distanciaram. Olhando para as pessoas que se divertem no bar, comenta, discretamete, que achou bonito e gracioso o senhor que está ao lado. O flerte, no entanto, não deve ir adiante: "Nunca namorei um negro, eles não gostam de mim, quem gosta de mim são os brancos. Sou negra, mas me dou bem com os brancos! Fazer o que, né?".
Dina é querida por todos do bar, funcionários ou frequentadores, e enquanto espia e se diverte com o pessoal que arrisca alguns passos de dança ao som de "Fita Amarela", composição de Noel Rosa...
[Quando eu morrer não quero choro nem vela
Quero uma fita amarela gravada com o nome dela
Se existe alma, se há outra encarnação
Eu queria que a mulata sapateasse no meu caixão
Não quero flores, nem coroa de espinho
Só quero choro de flauta, violão e cavaquinho ... ]
...indica aos clientes perdidos que o banheiro fica no piso de cima e acaba soltando com tranquilidade a frase que parece ser importante para quem parou para ouvir sua história. “Sou de outra geração, mas minha cabeça está na evolução”.

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